
Texto que introduz e abre a Escrita Final intitulada "Caleidocópio" desenvolvida no Master Program DAS Choreography da Amsterdam University of Arts / Academy of Dance and Theater entre 2021 e 2023 e que, por sua vez, acompanha o processo criativo do solo de dança "Verter Abismo" .
A criação do solo evoca um pensamento coreográfico que teve como disparador a pergunta sobre como considerar cuidado como uma prática de percepção não hegemônica, encarando o"co-habitar o fundo" enquanto uma experiência de imaginação radical, de sensorialidade ficcional, de vulnerabilidade compartilhada e de perigo eminente.
Tanto o trabalho performático como a prática de escrita que o acompanha são terrenos onde evoco uma linguagem que brota da experiência de estrangeirismo e que tem a paisagem oceânica, especificamente o abismo sub atlântico, como território de ficção e poesia.
essa história já foi contada aqui antes...
...mas você, mais uma vez, esqueceu. a história das sujeiras que são limpas às custas das horas calculadas de trabalho, assim como das feridas que são abertas e reabertas, apesar da luta insistente e diária contra a intoxicação do extraordinário. aqui não é diferente, esta é mais uma tentativa de manter ardente e rugosa a experiência da vida, quando esta se vê [violentamente] despossuída, planificada sem fundo. você consegue perceber o que não está, vulgarmente explícito, no horizonte dos seus olhos? [mas que, por ser mistério, vibra na escuridão da sua sanidade?] Você consegue sentir gosto para além da palavra encaixotada, mastigada e processada, pronta para ser consumida? [mas que, por sua crueza, exige esforço da sua digestão?] você consegue ouvir os tremores? parece que não, já que o silenciamento do conflito, o controle da linguagem dissidente, a antecipação do sentido, o apaziguamento do distúrbio, a extrativização do desconhecido, enfim, a norma, parecem ser tão mais forte e resiliente quanto a sua boa vontade em desaprender.
enquanto você espera, os subsolos tremem…
deste lado da linha [no fundo] tenho aprendido muito. percebo que, para além das superfícies estratificadas da linguagem, a tentativa de cair nos tremores subterrâneos do corpo é o que me resta. é o que me fere e o que move. é o que me permite re-imaginar um lugar para pertencer. seja este lugar um quase-lugar entremares. um quase-som entre céu e terra. um vazio-cheio entre eu e você. uma não-presença que ocupa espaço. uma sensação de memória esquecida. tenho aprendido que apesar de [parecer] ser um precipício suicida a queda é, por um lado, veneno e alienação, por outro, [e quando lançada em espiral] cura e transmutação. como resposta ao consumo sistêmico do inefável, essa tem sido uma forma de dança que insiste em não ser só forma. uma dança que move para re-apresentar o desconhecido [ao corpo]. re-des-orientar-se [pelo corpo]. até desconhecer [o corpo]. até deixar de ser [um só corpo]. dança irrefreável da vida, que é seguir em movimento. assim como mergulhar. Mesmo que esteja morrendo.
enquanto você se culpa, as paredes choram disfarçadamente…
para seguir, é preciso dizer que, apesar do tremor que cristaliza o peito e do silêncio que emudece o prazer da palavra, essa não é [apenas] uma tentativa desesperada de se esconder. é [também] fuga. fugir da captura inevitável dos olhos retilíneos e fugazes [do lado de cima da água]. Fugir como quem escapa, esquiva, desvia, ginga. fugir justamente para tentar [em um corpo outro] [des]aparecer. no fim, essa uma tentativa de expansão dos espaços entre as margens. expandir tal como habitar os vazios das articulações [os espaços entre os ossos] para [desde aí] deixar mover uma especulação poética [e infinita] de um corpo que é sintoma, cuidado e tragédia. um corpo que, por recusa a apatia, transborda e [então] deixa de ser continente.
enquanto você lamenta a morte, outros seres povoam a animam a vida.
lá, desde o fundo, ao invés de perder o ar, [e apesar da infertilidade, aridez, assepsia e solidão dessa terra] um dos respiros, tem sido abrir o espírito e os seus buracos a ponto de expandir vida como forma de mover. ao invés de espremer a carne e a pressão arterial, tem sido melhor arredondar os ossos até deixarem de ser lanças quebradiças e tornarem-se membros autônomos de um sistema que nutre, protege e brota salubridade. ao invés de secar as córneas por inteiro, tenho preferido insistir em procurar gotas de brilho [desde dentro] da branquitude dos lóbulos dos olhos. Olhar caleidoscópico. Olhos que não veem apenas em linha reta, mas que tocam a aparência irregular das superfícies.
enquanto você se mostra preocupado demais, mãos firmes mantêm o céu suspenso…
antes de chegar ao fim, [e para que não se tenha dúvida] a tradução entre mundos pode abrir feridas enormes, espaços profundos pele adentro, que [com o tempo] se tornam fendas de longa reparação. cuidar dessas fendas [antes que se tornem cavernas solidificada] tem sido trabalho árduo. tem sido exaustivo, sim, uma vez que o descanso, a sutileza, o tempo para o estudo, a leveza, a calma necessária para intuir, o silêncio para escrever, o prazer do passeio, a delicadeza, a, solidão voluntária, o abrigo, o amparo, a solidez do chão pra pisar, das paredes para aquecer, a lucidez, tem sido como que pérolas [não hereditárias] cuja re-possessão acaba por ter alto custo ao sistema nervoso. dito isso, o que sufoca não é estar aqui [submersa], mas é a contínua extrativização das múltiplas formas de vida que se inquietam frente a suposta segurança da margem. o que sufoca é a sua compulsão pela eficiência na leitura do obscuro. é o controle que se dá na sutileza. o não-dito que define. a leveza que esmaga. são as palavras performadas como compreensão da diferença, mas que estilhaçam os corpos [e danças] daqueles que tentam habitar outros espaços para além dos quais foram destinados a naufragar.
enquanto você tenta entender, outras línguas tocam você…
portanto, ao invés de sucumbir ao achatamento da vida, aprendo constantemente com o fundo que é preciso manter-se em vertical espiralada. é preciso insistir no incompreensível. é preciso soltar o corpo [da imagem] e a palavra [do texto]. é preciso [quase toda manhã] desistir. é preciso, por vezes, voltar à superfície a fim de re-des-orientar-se. afinal, [no fundo], o que está em colapso não é o corpo que tenta visceralmente respirar, ou que se debate sob um chão que não suporta sua inconcretude. o que está mesmo em colapso, é o consumismo [disfarçado grotescamente de “interesse”] em tudo aquilo que difere da própria imagem no espelho. não, isso aqui é um outro tipo de colapso. é um outro tipo de queda. é cair corajosamente nos conflitos sem palavras. é dizer [ao sublime]: “ei, você não é impalpável!”. é considerar que o fundo pode ser um lugar para habitar [junto] e com medo.
enquanto você se mantém ereto, o horizonte fez do passado e do futuro um só mar.
por fim, a racionalidade compulsória, tóxica, abusiva e exploratória é o que me faz afundar. Então, este [poderia ser] um relato para re-aprender a habitar o fundo desde o ponto de vista da água, do vazio e do silêncio. como eu disse, essa é uma história que já foi contada aqui antes, de outras formas, mas você, [mais uma vez] esqueceu. Portanto, [e para tomar notas], seguem alguns lembretes: assustador é a perversão impregnada na bidimensionalidade do pensamento; o perigo [que importa] está na força de vida que é evocada na revolta diária frente a despossessão do mistério. e, por fim, a monstruosidade está nos olhos de quem vê.
enquanto você fingi que se revolta, o fogo arde histórias por você sempre esquecidas…