AUTORETRATO em movimento [2013] - Residência Ateliê Real/Lisboa 

Este foi um projeto de residência artística em dança e escrita realizado no Ateliê Real em Lisboa que fez parte da pesquisa de mestrado que desenvolvi na UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas/SP). A pesquisa de mestrado teve como foco desenvolver um estudo teórico-prático a partir da intersecção entre Mímesis Corpórea (Lume Teatro) e a minha experiência pessoal com a dança. Esse processo culminou na escrita de um texto atravessado pelas práticas e metodologias de criação materializados também através de de um experimento performativo intitulado "autorretrato em movimento" que foi apresentado no evento Blind Date no Ateliê Real em Lisboa.

"Disserto disfarçadamente. Discorrimento. De certo, faço dessa matéria de palavras uma pausa, que virou outra coisa, que nasceu do vivido. Discreta. Certamente discorro sobre dança, sobre corpo e criação, mas também sobre mim (esse outro), sobre a vida e sobre uma memória que virou presente agora, enquanto escrevo e, agora, de novo, enquanto se lê. Descarto as respostas. Desisto quase que diariamente. Descrevo movimentos, experiências e tentativas. Do certo e do errado. Descanso das formalizações. Desperto desejos, em mim, ao menos. Descarada que sou. Desminto depois de mentir. Nem sempre.

 

Escrever é como falar da experiência de viver, tal como foi, e ainda é, no exato momento em que se escreve. Transformar a vida em matéria de verbo e....

 

Antes mesmo do pensamento pensar,

essa linha reta

reta e vermelha

corre

desesperadamente

para alcançar o seu destino: de ecoar o pensamento.

Fazer dele uma mera brisa inofensiva,

carinhosa comigo.

Coisa que normalmente não é.

Sendo ele,

o pensamento, cruel com a gente

quase sempre,

quando acha que é corpo,

mas não passa de vento.

 

Tento encontrar essa escrita que se deleita com o fluxo de um rio. Tem horas em que ela mesma se atropela, cria correnteza onde mal se vê o fundo. A terra lá em baixo. Outras vezes tromba de margem em margem, desgovernada, indecisa sobre o prumo certo. Procuro palavras que me fluam, que se conectem com o estado da dança do silêncio. Procuro pelas palavras com a mente ventilada, normalmente é daí que elas surgem concretas e se deslizam. Caso contrário, serão artificialidades injetadas de intenções mundanas, serão vontades de uma parte minha que não vale muito a pena. Escrever me traz para cá, me faz conversar com você, que sou eu aí. Me faz gostar mais de mim, que é você disfarçado de leitor.

O que poderia acontecer se eu me sentasse em frente a essa tela e resolvesse escrever algo que ainda não sei o que é? Se eu apenas deixasse esse estado de domingo chuvoso, único dia de silêncio brando na cidade, me atravessar como um impulso do corpo e deixasse de ser estado para virar palavra. Palavras aparentemente tolas que não servem para nada, ao menos para trazer alívio e chamá-las de desejo escrito. Então, me deleito com esses dias que chegam para ficar comigo e eu estou para ficar com eles. Companheira do tempo. Um momento como esse serve sim para alguma coisa: serve para vivê-lo em segredo - agora - revelado: desejo de dançar, ir ao encontro do silêncio ensurdecedor, continuar, assumir a fragilidade, emancipar e criar outros em mim (transformando-me)! Um desejo de criação, de reflexão - para resistir ao sufocamento do afeto e do prazer, ao que enrijece, ao que inibe, ao que me consome e me apodrece o espírito."

(prólogo "O corpo escreve")